Comunidade do Bairro de Fátima dá início à luta pelo reconhecimento como quilombo urbano na expectativa de acesso facilitado a políticas públicas
Formado por comunidades negras deslocadas, principalmente, da Baixada Ocidental e do Vale do Itapecuru tem muitas manifestações culturais e religiosas de matriz africana
Nkosi Sikelel' iAfrika (Deus abençoe a África). O hino popular do Congresso Nacional Africano, liderado por Nelson Mandela por anos, foi entoado no Bairro de Fátima, na noite do dia 15 de junho, por cerca de 70 representantes de entidades culturais, esportivas e comunitárias. Com o tema “Bairro de Fátima: em busca do Quilombo Urbano” o objetivo da reunião foi dar o pontapé inicial para o processo de levantamento de dados para que a comunidade seja reconhecida oficialmente pela Fundação Palmares como segundo quilombo urbano de São Luís.
OUÇA - Nkosi Sikelel' I-Afrika - com Djavan https://www.youtube.com/watch?v=xZb3wYe3Jw8
Os trabalhos da noite foram coordenados por Karine Muniz (psicóloga e antropóloga, estudiosa do Quilombo da Liberdade e Representante da UNEGRO-MA), Ingrid Belford (professora do NÁfrica-UFMA), Cristiane de Oliveira (professora e representante da comunidade do Bairro de Fátima) e por Gerson Pinheiro (secretário de Estado de Igualdade Racial).
O coordenador da Secretaria de Estado da Igualdade Racial (SEIR-MA), Alexandre Magno, explicou os passos para que a comunidade obtenha o reconhecimento como quilombo urbano. “Este é um trabalho que precisa do engajamento e da vontade da comunidade de se autorreconhecer como uma originária de deslocamento de quilombos tradicionais e que mantém seus vínculos culturais, religiosos e sociais com eles”, conclui Alexandre.
A professora Cristiane de Oliveira deu boas-vindas aos presentes e destacou a importância desse “trabalho que une poder público e comunidade”.
ABRAÇO NEGRO

O secretário de Igualdade Racial, Gerson Pinheiro, se autodefiniu como um “secretário de reparação, isto é, para repor direitos”. Depois analisou o momento político por qual passam o país e o Maranhão, com governos (Lula, no Brasil; e Carlão Brandão, no estado) abertos ao diálogo e ao reconhecimento de direitos das comunidades tradicionais e povos originários. Ele explicou que, pelo menos, dez bairros em São Luís foram formados por populações negras retiradas da Baixada Ocidental e do Vale do Itapecuru, regiões com grande número de populações negras. “O núcleo central de São Luís teve um verdadeiro abraço negro, constituído pelas comunidades que foram formadas ao longo dos rios da Bica e do Anil”, explicou o secretário Gerson, que também é formado em Geografia.
Gerson anunciou que o trabalho que está começando no Bairro de Fátima não será restrito apenas ao próprio bairro, mas englobará toda a região, como a Areinha, que surgiram a partir do núcleo original. “O futuro quilombo urbano do Bairro de Fátima deverá incluir as comunidades adjacentes, como ocorre na Liberdade, que tem além do próprio bairro, a Camboa, Diamante, Fé em Deus, entre outros”, conclui.
As professoras Karine Muniz e Ingrid Belfort expuseram sobre o que já há de publicado sobre os quilombos urbanos, que são entendidos como conceito amplo: quilombos transplantados. Mostraram que serão pesquisados documentos, publicações, relíquias religiosas de terreiros e de grupos culturais; além da coleta de depoimentos dos moradores mais antigos, brincantes, praticantes de regiões de matriz africana; representações políticas. Todos vão compor uma espécie de dossiê.
Em seguida, várias lideranças comunitárias e de agremiações esportivas e culturais se manifestaram. Todas no mesmo sentido: pôr as mãos na massa para o Bairro de Fátima se tornar, em breve, no segundo quilombo urbano de São Luís. Andrelina, Ivaldo, Cristiano, Luís Carlos Guerreiro, Francinaldo, Jarbas... citaram dezenas de exemplos de atividades que qualificam o BF ao reconhecimento como um território do povo negro.
Na fala de todos, o anseio por políticas públicas que possam amenizar as desigualdades, as injustiças, e a compreensão de que o reconhecimento pela Fundação Palmares, do Bairro de Fátima como Território Quilombola facilitará o acesso a essas políticas.
PRESENÇA QUALIFICADA
Adrelina Joana Leite (presidente da Associação Carente S. Benedito), Ivaldo Silva (líder comunitário dos feirantes), Cristiano (líder comunitário dos movimentos sociais), Jarbas Santos (produtor cultural e líder comunitário), Francinaldo Santos (Boi de Newton Correia), Marco Moreira (presidente da FIV), Luiz Guerreiro (cantor e compositor fundador do Bloco Afro Abibimã), Benilson Ribeiro (presidente do departamento de esportes), Sérgio Luís (integrante do Conselho Municipal de São Luís das Crianças e Adolescentes), Sergio Cabral (presidente do Centro Cultural do Bairro de Fátima).
UM POUCO MAIS
Localizado próximo ao Centro à margem do Rio das Bicas, o Bairro de Fátima é um bairro de muitas manifestações culturais maranhenses que tem desde a quadrilha junina ao bumba-mau-boi. Em termos quantitativos é o bairro que mais possui brincadeiras ou manifestações culturais de São Luís.
O Bairro de Fátima possui duas escolas de samba (Marambaia e Unidos de Fátima); vários blocos tradicionais; vários grupos de tambor de crioula; danças portuguesas; vários grupos de bumba-meu-boi, destacando-se o Boi de Zabumba de Dona Zeca (o mais antigo do Bairro); um bloco afro (Abibimã) e um bloco de rua muito popular chamado de "Bloco do Fuxico". Destacam-se clubes de reggae.
LIBERDADE
A Fundação Palmares, por meio da Portaria nº 192, de 13 de novembro de 2019 reconheceu a Liberdade como comunidade remanescente de quilombo. O Território Liberdade Quilombola foi o primeiro quilombo urbano reconhecido no Maranhão e sua área abrange cinco bairros de São Luís (Liberdade, Camboa, Fé em Deus, Diamante e Sítio do Meio), com uma população de cerca de 160 mil moradores, constituindo-se num dos maiores quilombos urbanos da América Latina. Com esse reconhecimento, é possível ter políticas públicas, de infraestrutura e qualidade de vida voltadas especificamente para a comunidade.