Artigo “Casa de Negro Cosme”

23/02/2022

CASA DE NEGRO COSME

*Gerson Pinheiro

Rua do Giz, uma das mais belas do Centro Histórico de São Luís, uma das mais belas do País. Símbolo da construção pela burguesia nascente de um patrimônio econômico e cultural onde o hodierno, de então, recorria para nascer ao remoto modelo de produção escravista. É certo que, de lá até aqui, dobrou-se a esquina da abolição onde foi servido o banquete dos tempos modernos. Um banquete cujo acesso se deu, propositalmente, por duas portas: uma destinada aos primogênitos da classe dominante, cuja ruptura do modo de produção não exigiu que abdicasse ao poder; a outra conduziu a uma estreita manga que lateralizava a farta mesa, oferecendo, ad aeternum, ao povo negro os restos do banquete.

A história segue em frente em sucessivas batalhas, muitos percalços, algumas vitórias. Em um complexo caldo dialético que exige constante atenção no exercício de decifrar recuos e avanços. Sempre agradecendo aos que nos antecedem com disposição para seguir seus passos e para apontar caminhos aos que virão. A caminhada é nossa e de todas e todos, independentemente de credos e etnias. Assim queremos apresentar como reconquista do povo negro do Maranhão a casa que doravante passa a ser reconhecida como sua e de todos que estejam dispostos a dar continuidade a sua edificação e manutenção. 

Bem-vindos a Casa de Negro Cosme!

Este é um ponto de chegada para aqueles que historicamente travaram e travam no Maranhão, esta importante unidade do nosso Brasil, a luta pela igualdade iter-étnica. Uma caminhada que teve início na resistência ao sequestro e depois à tortura nos porões, nos troncos, nas senzalas, nas cafuas... Negros, indígenas, ciganos, outras etnias!

Entre! Não sem antes te engajar na luta pela reconquista do produto do suor, sangue, fé e cultura dos teus ancestrais: ruas, ladeiras, escadarias e praças da liberdade. Liberdade da qual Cosme se fez tutor e imperador.

Um homem além do seu tempo, Negro Cosme era apaixonado pelo conhecimento, o que evidencia ao fundar, em Lagoa Amarela, a primeira escola da qual se tem notícias, segundo Clovis Moura, em uma Comunidade Quilombola. Assim, joga por terra as teses que o classificam como sendo um homem inculto e que dependia de assessores para redigir documentos e diretivas a seus liderados.

Há indícios históricos de que a insurreição dos negros no Maranhão tenha antecedido a Balaiada. Assim, Cosme já líder dos insurretos, consciente da dificuldade do sucesso de uma luta isolada, de caráter étnico, organizada a partir dos quilombos e tendo como bandeira principal o fim do regime escravista, teve a sagacidade de enxergar no levante dos “Bem-te-vis” a ampliação das condições necessárias para a vitória, e assim, decidiu engrossar suas fileiras. Oportunidade ímpar para lutar pela tomada do poder de estado e superação histórica do modelo escravocrata no Brasil, a partir do Maranhão.

Indica a historiografia que Cosme tenha sido, além de um dos líderes da Balaiada, o comandante do exército negro na luta contra a escravidão. Assim, te convidamos a fazer desta casa, no mais amplo e nobre dos sentidos, um ponto de partida para novas etapas da jornada do povo negro por liberdade e igualdade entre os diferentes, de todas as etnias.

*Gerson Pinheiro de Souza é Geógrafo (UFMA). Militante do movimento negro, desde 2015 exerce a função de Secretário de Estado da Igualdade Racial.